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LES PANTHÈRES ROSES - PARIS - 2004
A heterossexualidade não é uma orientação sexual maioritária,
é um sistema político É um mundo maravilhoso cheio de evidências
Há bebés cor-de-rosa, de quem se aprende a doçura, a vulnerabilidade; o seu mundo será o
privado e o seu fim a maternidade, serão as mulheres. Há os bebés azuis, que os faremos reis da
arena pública, do poder e da decisão, estes serão os homens. E é assim, não existe nenhuma razão
que altere isto. Cada um, e cada uma, no seu lugar, fabricado para se casar, criar uma família,
reproduzir-se, consumir, trabalhar, não colocar questões. E é assim que vai o bom mundo,
não tem nome, é normal, evidentemente. Mas este mundo idílico está em perigo. As ameaças,
essas, têm muitos nomes (paneleiro, puta, fufa, maricas, etc). Ou os insultos que servem para
todos aqueles que não se adaptam bem na sua cor. Mas os desvios existem, mas devem ficar sabiamente
à porta. Fora esses seres masculinos que não querem ser homens, dominadores da outra metade da
humanidade. Assim como aqueles seres femininos que preferem os seus amantes ao seu senhor
(que muitos chamam marido) e que reivindicam o seu prazer sexual! Assim como aqueles seres
que se constroem identidades que não correspondem ao cor-de-rosa ou ao azul do seu nascimento!
Para isso, dispõem-se de armas de invisibilidade massiva, mísseis da vergonha e bombas
biológicantes. E outras ferramentas poderosas, que fecham no armário a aqueles que não são
como deveriam ser, que os empurram a esconder-se, a dar uma boa imagem, na esperança de algum
dia ser como toda a gente, finalmente normais. Um dia, @s desviad@s recusam esconder-se.
Observando desde fora este mundo que vivia tão bem sem el@s notam que o rosa e o azul é demasiado
restritivo! Então nomeiam-se e nomeiam o mundo. Renomeiam as evidências como opressão e alienação.
E por isso é a sua vez de tomar armas, os mísseis do orgulho. São então trans, paneleiros,
fufas, feministas. O mundo não é mais normal é heteropatriarcal. Tem orgulho de não serem
cúmplices da dominação masculina, orgulho de explorar as terras interditas do desejo, orgulho
de praticar sexualidades não reprodutivas, orgulho de adoptar uma a uma as múltiplas identidades
que lhes oferecem, orgulho de sair do servilismo da Mulher. Elas não eram as únicas à porta.
Desde fora parece que a cor da pele e o país de origem são também motivo de exclusão.
E que uma maioria crie riquezas para o proveito de uma minoria. E que os poderosos façam
-se guerra para serem ainda mais poderosos. E que se persiga @s prostituid@s porque o sexo
continua a ser um tabu. A categorização aliena todo o mundo. Então é que certas pessoas de
dentro compreendem que o cor-de-rosa ou o azul também não lhes convêm. Que querer ser um verdadeiro
rapaz ou uma mulher perfeita é ilusório e alienante. Mas os mísseis da vergonha e as granadas do
conformismo continuam a chover. @s desviad@s continuam a querer integrar-se nessa miragem de paraíso,
e, bem encobertos com a couraça da vergonha, el@s garantem, sem dar-se conta, o aparente poderio deste
mundo. Provemos que viver de outra maneira é possível, denuncie-mos a heterossexualidade como sistema
político, neguemos o natural, o normal, a ordem simbólica. Enfrente-mos a moral, batamos orgulhosamente a
porta, não sejamos cúmplices da mascarada heterossexual. Desintegremos o sistema mais que tentar
integrar-nos. Fazem-nos a guerra. Pensemos de outra maneira os relacionamentos humanos.
Tradução Panteras Rosa
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